



Chico caminhava sem algemas nos gestos.
Sua presença era sempre sentida de forma doce e calma.
Amante da liberdade, celebrou sua existência afirmando que ninguém deve ser trancado para caber no mundo.
Compreendia que saúde é uma prática coletiva que deve ser construída em comunidade.
Onde esteve, fez circular arte, música, palavra, alegria, território. Entendia que o cuidado acontece quando o corpo pode atravessar a cidade, quando o encontro é possível, quando o sujeito deixa de ser número e volta a ser nome.
Chico não levantava a voz, mas sustentava o chão.
Era marcante sem dureza, afetuoso sem concessão.
Tinha o riso afiado de quem sabe que a festa e a alegria são ferramentas de resistência e invenção.
Falava da família como quem fala de raiz.
Do Vasco como quem fala de fé.
E da vida como quem escolheu estar implicado.
Agora, sua breve ausência denuncia o quanto sua presença foi preciosa para quem provou dela.
Mas Chico não se ausenta por completo.
Ele permanece nos vínculos que ajudou a criar, nas práticas que recusam a violência institucional, nos gestos cotidianos que insistem em cuidar sem domesticar.
Chico fica como memória ativa.
Como ética em movimento.
Como lembrança de que a luta antimanicomial não é um evento é uma forma de viver.
Seguimos.
Com saudade.
E com a responsabilidade de honrar o que ele nos ensinou:
cuidar é, antes de tudo, um ato político de amor.
Evoé, Chico!
Com amor e grande tristeza,
da sua turma, da nossa turma de 2016.



